sábado, 24 de julho de 2010

Onomatopéia

Desculpem-me, não fui ao compromisso hoje. Pus uma roupa elegante, mas não fui. Preferi ficar em casa e resolver os problemas sem solução que tenho. Na verdade, não pude ir, pois não tenho mais dinheiro. Mas decidi que disso não vou mais me envergonhar.
Quando desci para somente comprar cigarros, abri a porta junto com a vizinha da qual nem posso chamar de antipática porque a antipatia é tamanha que até desconfio que não seja. Contei uma mentira alto no celular que, é claro, não tocou. Interpretei como um bom ator frente às câmeras. Não abri a porta do elevador - não quis parecer grosso, não foi isso, acontece que ser educado demais com quem não lhe trata bem não é muito conveniente. (Lugar maldito! Meu cachorro não pode nem latir, onde já se viu?) Enfrentei longos dez segundos entre meu andar e a garagem, na qual ela se despediu com um “Bom dia!” Correspondi ao cumprimento e fui ao subsolo, sem me preocupar se acreditou ou não na falsa conversa ao telefone. Eu não estava indo para editora alguma, apenas desci para comprar cigarros. Gente fria, maldita!
Na padaria, o tratamento diferente amenizou minha auto estima ferida: assim que entrei ouvi cochichos das atendentes, pude até notar uma ponta de ironia indecente no sorriso de uma que escondia parte do rosto como se contasse segredo a outra - menos mau, ainda sou bonito e tenho meu charme. Atravessei a rua para ler as primeiras páginas dos jornais, que nada tinham de novo: recessão, assassinato, desemprego...Esses clichês cotidianos. Disfarçadamente, verifiquei minha carteira contando as moedas, junto com o troco das passagens das três conduções que tomo para ir e voltar do trabalho, na esperança de que somassem um mísero real para comprar o Jornal do Brasil. Não fossem os cigarros eu poderia comprá-lo, mas se escolhesse o jornal ficaria sem cigarros. (Ô vida!)
Novamente o toque imaginário para me livrar da vergonha perante o jornaleiro - esse, é lógico, não caiu, mas também não se pronunciou, a diferença entre ele e eu limita-se à roupa e ao salário: o dele é maior! Voltei para casa e, no caminho, ao ser gentil segurando o portão para um senhor, não fui correspondido ao lhe desejar um bom dia. Fui sim correspondido pelo porteiro e, muito mal por uma empregada doméstica, a julgar pelo uniforme. Ela proferiu um pigarreado, mal abrindo a boca. Tomei o elevador, desta vez sozinho, graças! Apenas o espelho - que não posso olhar porque existem câmeras monitorando, não o que fazem de errado e sim as esquisitices que as pessoas cometem com seus reflexos. Supervisionei o topete discretamente e só... só faltava encontrar o diabo da empregada da diaba da vizinha. Felizmente disso me livrei e aqui espero o telefonema do editor sobre a crônica que prometeu publicar até o final do ano. Enquanto não liga, fico aqui, escrevendo e desejando mal àqueles que parecem não me aceitar no prédio.
Tenho que pensar numa estratégia para não aparentar um desempregado. Não estou, mas ganho tão pouco que me considero como um, faço parte de uma enorme massa que dorme de olhos e ouvidos alertas. Aqueles que só se sentem bem se souberem que à noite, terão um bom jogo de futebol pra assistir. E eu vou um pouco mais: também gosto de uma boa literatura. Penso que, no ônibus de logo mais, terei que assumir a mesma personagem de todos os dias e me sentir desconfortável para não dormir no ombro de alguma velha que esteja do lado (às vezes tenho tanto sono que acho que cansaço é contagioso, pois todos dormem no ônibus de uns anos pra cá, não importa a roupa que vestem ou o cargo que ocupam, todos encostam as cabeças na janela do coletivo e roncam solenemente, até em pé eu já dormi, só acordei porque provavelmente o motorista também dormiu e, assustado, freou bruscamente “juntando a carga”, e tem gente que não acorda...
Diabos! Pra que faculdade, especialização, boa oratória e o escambau? Vivo preso a uma carapuça que construí pensando ser a solução pro meu sucesso e cadê? Só tenho dívidas - agora maiores porque também existem os débitos intelectuais perante a sociedade, afinal, um sujeito instruído deve ser bem colocado, ter bom salário e um carro, ao menos seminovo.
Atesto, embasado nisso tudo que descrevo até aqui, que papai e mamãe erraram ao ter tantos cuidados para que não houvesse desvio no meu caráter. Se não fosse isso, talvez hoje estaria ganhando no mínimo dez vezes mais do que ganho. Aliás, de quantos momentos de honestidade fui protagonista para receber um elogio após uma rescisão de contrato? Tantos parabéns por ser dotado de valores tão nobres, foram responsáveis por minha inclusão no Serviço de Proteção ao Crédito entre outros tantos órgãos? Faço parte de uma contraditória, porém verídica estatística nacional, estou dentro dos setenta por cento de cidadãos que ganham menos de um salário mínimo e, simultaneamente, dos dois por cento que possuem o maior grau de escolaridade. Isso não teria tanta importância se eu pudesse, ao menos, ajudar minha mulher a pagar as contas da casa. Esse lugar infernal! Existem mais demônios por metro quadrado aqui do que no paraíso de Lúcifer. Pelo menos minha família é sensacional!
Falei... falei, e ainda não me apresentei a vocês. Sou José, José Ninguém, aquele que senta do seu lado no ônibus todas as manhãs e que, apesar de bem vestido, baba em seu ombro e reclama se você balança, mesmo se a culpa for do motorista cansado; que veste camisa social e gravata para amenizar sua aparência fatigada do calor humano miserável de quarenta graus que faz nesse país, do suor frio na hora do caixa eletrônico, do taquicardia que as contas do fim do mês provocam. Sabe aquela sensação de impotência, quando seu filho olha a vitrine, fascinado pelo vídeo game ou... mesmo pelo sonho dormido, transbordando de doce de leite, na estufa da padaria infestada de abelhas, e que você o reboca pelo braço, com a força da impossibilidade de fazê-lo sorrir de satisfação? Eu também já senti, é horrível não é? Hum! O café está frio, mas tenho coragem de jogar fora, não sei por quê! E outra coisa engraçada – esse meu humor negro... – é quando ouvimos aquela clássica afirmação da mãe: - você é rico sim, rico de saúúúúde! Putz! Desculpem-me o baixo calão desta palavra, mas veio à tona para evitar algumas manifestações de mau uso que, com certeza seriam piores (inclusive, por força daquela estatística dos dois por cento, não me seria conveniente proferi-las...)
Tive uma idéia: vamos formar um movimento de vanguarda, como nos anos de chumbo, sem desmerecê-los é claro, nem tampouco depreciá-los ao ridículo desta situação, vamos deixar de sermos reacionários e falar para nossos chefes que eles são uns miseráveis, uns burgueses medíocres que só pensam nos seus umbigos. Que eles poderiam nos fornecer botas até as canelas para não sujarmos nossos pés na lama que é a volta para casa. Talvez, desta forma, ao menos nossos lençóis, poderiam não ser a primeira decepção de todas as manhãs.


Guarnier

3 comentários:

  1. Obrigada pelo texto!
    Envie sempre que quiser!
    Postaremos todos.
    O blog é para isso!
    Não tem dono, mas é de todo mundo!
    Estamos aqui para "divulgar pensamentos".
    Aqueles que ficam guardados e ninguém tem coragem de libertá-los.
    Obrigada mais uma vez!

    Irmãs Martins!!

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  2. Amei o texto e é a nossa pura realidade, quem ler vai se indentificar e lembrar que um dia passou ou esta passando por isso, por exemplo como as irmãs martins sitou no texto "Em se visti bem".É para não dar a impressão que tem um salario, bem mediocre, o modo do pobre se vesti, é para dar dignidade para si mesmo.Eu mesma já passei por isso. Só que temos que nos impor, brigar pelos nossos direito, as pessoas tem
    tem priguiça de procurar seus direito e até mesmo briga por eles.O mundo não é cruel e sim as pessoas que vive nele.
    To com voces nesta luta.

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  3. Vale uma observação Deise:
    - O texto é de autoria do nosso mestre Guarnier.
    Seremos mais vezes agraciados com textos do nosso amigo.
    Fique com Deus e comente sempre!

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